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"Encostámos as cabeças uns aos outros e chorámos". É com esta frase que Américo Pais Borges, clínico de profissão e antigo comandante dos Bombeiros Voluntários de Canas de Senhorim, recorda a forma como as dezenas de bombeiros que prestaram socorro no acidente ferroviário de Alcafache se apoiaram uns aos outros perante um cenário perfeitamente dramático.
No final da tarde do dia 11 de Setembro de 1985, falhas de comunicação entre duas estações de comboios acabariam por resultar num dos maiores e mais mortíferos acidentes de comboio do nosso país. Às 18h35 horas, perto do apeadeiro de Alcafache, distrito de Viseu, deu-se a tragédia. Os chefes das estações ferroviárias de Nelas e Mangualde deram ordem de avanço ao Sud-Express, composição 315, com cerca de 300 passageiros a bordo, que tinha partido da cidade do Porto com destino a Paris-Austerlitz. Em sentido contrário seguia o inter-regional que, com cerca de 40 pessoas a bordo, fazia a ligação entre as cidades da Guarda e Coimbra. Segundo testemunhos da altura, o mítico Sud-Express, que transportava dezenas de emigrantes, teria prioridade sobre o inter-regional no momento em que se cruzassem. Na presença das composições, e numa altura em que as comunicações ferroviárias eram muito débeis, os responsáveis acabaram por dar ordem de avanço aos dois comboios, decisão que resultaria num choque frontal seguido de descarrilamento de várias carruagens.
A verdadeira contabilização das vítimas mortais deste acidente nunca foi possível. Dos 460 passageiros que integravam as duas composições, muitos foram os corpos que ficaram irreconhecíveis. O estado em que foram encontrados, na maior parte totalmente carbonizados, faz com que, ao longo dos últimos 20 anos, o número de vítimas varie de fonte para fonte. Segundo Pais Borges, em declarações ao "BP", terão morrido entre 120 a 150 pessoas. Apesar da brutalidade deste acidente, muitos foram os passageiros que, seguindo nas composições traseiras, conseguiram fugir às chamas que deflagraram após o embate e que rapidamente se propagaram às carruagens seguintes, e à floresta que circunda a linha da Beira Alta naquela região.
"Lembro-me de tudo"
O antigo responsável operacional dos Bombeiros Voluntários de Canas de Senhorim refereiu ao "BP" que ainda hoje, 20 anos depois, se lembra da tragédia como se esta tivesse acontecido recentemente. "Era um dia de calor intenso. Estava sentado na central dos voluntários de Canas e ouvi a mensagem de uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Aguiar da Beira que pedia, de forma desesperada, que fossem enviadas ambulâncias para a estrada entre Nelas e Mangualde. O pedido foi repetido mais que uma vez. Pensando que se tratava de um acidente com um autocarro, dei ordem imediata de saída a cinco ambulâncias. Entretanto, e através de outro pedido de socorro, houve alguém que solicitou autotanques, referindo que havia "carruagens a arder". Nesse momento, percebei o que tinha acontecido". Segundo Pais Borges, ao fim de cerca de 20 minutos, o tempo que levou a chegar ao local, o cenário com que se deparou era "pavoroso". Carruagens a arder como archotes e um incêndio florestal na zona envolvente. Segundo o ex-comandante, a eficácia no socorro e no apoio às vítimas foi "impressionante". Ainda hoje, acho que Alcafache foi um marco. Sem CDOS e com os meios que dispúnhamos na altura, era impossível fazer melhor do que aquilo que foi feito. Os bombeiros não tinham a formação que têm hoje, mas mesmo assim, e pelas informações que recolhi junto de colegas meus no Hospital de Viseu, as vitimas chegaram, dentro do possível, muito bem
"estabilizadas", conta o antigo comandante, que ressalva o facto da linha férrea se localizar muito perto de uma estrada nacional, factor que "facilitou" as operações de socorro.
Se o acidente de Alcafache tivesse acontecido recentemente, os bombeiros envolvidos nas operações teriam certamente usufruído do apoio psicológico providenciado pelas equipas que hoje já existem no terreno. Há 20 anos atrás, as coisas eram diferentes e, talvez por isso, os grandes psicólogos tenham sido os próprios bombeiros, que se viram obrigados a apoiarem-se uns aos outros. Mesmo assim, refere Pais Borges, há marcas que ficarão para sempre: "Alcafache foi um marco psicológico. Há imagens que não esqueço e ainda hoje faço algum esforço para que as lágrimas não me escorram pela cara quando falo deste assunto. A maior parte dos corpos carbonizados foram retirados do local pelas minhas próprias mãos. Foi preciso extinguir o incêndio florestal, missão mais fácil, e apagar o incêndio das carruagens com corpos ainda a arder. Há uma imagem de uma mulher cercada por uma amálgama de ferros, que esteve encarcerada durante horas, perante o risco de morrer queimada. Quando finalmente chegámos junto dela, dizía-nos de poucos em poucos minutos que estava bem e para nós termos calma. "Não se preocupem que estou bem". Talvez tenha sido ela a maior psicóloga naquele momento, perante o nosso estado de ansiedade, sublinha Pais Borges.
Ao distrito de Viseu acorreram bombeiros de todo o País. Pais Borges lembra uma equipa da Figueira da Foz que apareceu no terreno disposta a ajudar. Os bombeiros só abandonaram o terreno ao fim de três longos e duros dias. Duas décadas depois deste trágico acidente, Alcafache é lembrado através de um memorial erguido no local da tragédia, e no pensamento de todos os que assistiram impotentes ao embate destes dois comboios da morte.
Foi precisa uma tragédia destas dimensões para despertar as consciências para a necessidade de reforço das medidas de segurança. A linha da Beira Alta mantém ainda hoje uma via única, mas agora está electrificada e tem um sistema de comunicações via rádio.
Texto de Patrícia Cerdeira publicado na edição de Setembro do jornal "Bombeiros de Portugal"
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